Xongas e Milongas


Xongas e Milongas

Um breve ataque de nervos

Postagem 6 de novembro de 2011


Albenício da conceição, nome verdadeiro de Franklin Albertino era um falso “yuppies” que bem poderia ter feito carreira de sucesso no ramo da construção civil caso não lhe faltasse justo na hora em que tudo se resolve, uma formação universitária.

Naturalmente excluído da cobiçada roda de riquezas, o esperado, no entanto acabaria sendo inventado por ele mesmo. Após um o período de tentativas e inexpressivas atuações em produções cinematográficas no Rio de Janeiro também cheio de desilusões, acumulando desejos quase de forma patológica, corria atrás de um passado diariamente presente em questionamentos.

A rubrica está dada pensou ele – Precisos seguir em frente. Firmando suas esperanças no rico guarda que por força da obrigatoriedade havia formado e os raros perfumes que em tempos de “gloria” raramente repetia, de volta ao interior como um excelente contador de historias encravou seu prestigio como um respeitado agente de acontecimentos sociais.

Sua luta naquela manhã de segunda feira não era contra o dito-cujo fracasso, pelo menos disfarçava. A irritante sonolência que costumava dominar seu corpo durante o dia desde que decididamente passou a viver da noite era um dos motivos do seu visível descontrole. O par de meias uma diferente da outra, que ele trazia nos pés poderia por abaixo a sua reputação de um dos homens mais fino e elegante da cidade, um prenuncio de uma tragédia maior estava por acontecer. Anunciada ou não algo lhe dizia que ela estava a caminho. Mais do que uma entrevista o encontro para o qual estava indo era um teste de imagem. Sua aparência deveria ser testada em detalhes. A meia volta descartada para a correção do erro talvez tenha sido um erro ainda pior - Não havia mais tempo ele justificava consigo tentando deixar de pensar.

Como quem vê cara não vê coração e levado isso a cabo, agora o que importava era manter sobre controle a terrível situação. Lembrou que em outras ocasiões enfrentou acontecimentos idênticos embora esse pra lá de inusitado não beirasse nenhum deles. Permanecer firme seria evitar o pior. Uma a uma, as oscilações na auto-estima foram modificando seus reflexos. Ele estava tendo um surto - Porque estaria andando assim? - Meu deus! - Disse ele perto do pânico - Se o problema esta na barra da calça porque estou andando assim? - Aprumou de novo corpo.

De sua saída à hora da infeliz descoberta do mal-afortunado  par de meias, foi uma peregrinação - Nada que permanecer de pé não resolva – tentava ele raciocinar.  A cadeira desocupada do seu lado como ultimo aviso, parecia aperfeiçoar o propósito, da trama.

Quase ordenando, a voz feminina que se ouviu em seguida deu a entender que a hora havia chegado - Pode sentar. O senhor já vai ser atendido. Estaria ele pronto? O que deveria fazer? Com a curvatura das pernas iriam aparecer a meia? Tirar a cadeira e ocupar o lugar seria uma solução? Poderia ele jogar os pés pra debaixo da cadeira num simplório gesto de indiferença? Não. Isso com certeza não - Porque as coisas acontecem justo na hora em que estamos desesperados - Ainda teve tempo de pensar, antes que todos percebessem que havia alguma coisa errada com ele. Como permanecer ali parado feito um pobre dois de paus? Sentar seria pior. Correr então nem se fala ele precisava pensar.

Não suportando mais a crise nervosa quase aos berros falou: Ok. Estão vocês querem ver onde foi que eu errei? – levantando a perna da calça – Esse pé é de uma meia e esse outro é de outra!  Estão contentes assim? Eu poderia ser confundido com um adolescente rebelde que nega o presente como uma realidade podre de burguês falidos e suas coisas ocultas? Claro que sim. Revelaria talvez uma tardia maturidade? Também acho que sim! Mas, uma coisa eu digo pra todos vocês: mesmo para um homem que já passou dos trinta, isso não vai significar o meu fim!

- A menos que alguém lhe dissesse que os seus sapatos também não combinam um com o outro? - Alguém gritou percebendo a imensa confusão - Sob um forte ataque de nervos e nem sombra de elegância Franklin Albertino acolheu sua ruína já com a voz fraca dizendo: vocês estão com a razão este é realmente o meu fim.


TAW RANON





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